Eles foram o tema de uma mesa redonda do 7º Congresso Brasileiro de Cérebro, Comportamento e Emoções, realizado recentemente em Gramado, no interior do Rio Grande do Sul. Mas por que psicólogos, psiquiatras e neurocientistas elegeram os sete pecados capitais como assunto a ser debatido em um encontro desse porte? A resposta pode surpreendê-lo, caro leitor: essas infrações do comportamento humano estabelecidas pela Igreja Católica no século 13 podem, quem diria, melhorar nosso jeito de viver - palavra da ciência. Sim, conjugar o verbo pecar de vez em quando faz bem. Algumas atitudes, como prolongar aquela preguicinha na cama em plena manhã de sábado, colaboram para recarregar nossas ideias e energias depois de uma semana de trabalho atribulada. "Para um hábito se tornar patológico, deve causar sofrimento emocional e ocasionar, entre outras, dificuldades financeiras e familiares", diz a ginecologista Poliani Prizmic. Pecar na medida garante muita saúde. Veja a seguir.
A primeira lista
As cartas do apóstolo Paulo, escritas durante suas visitas religiosas a comunidades como a romana e a coríntia, deram origem à listagem inicial dos sete pecados capitais, criada no século 6, pelo papa Gregório Magno (540-604). Mas foi só no século 13 que a Igreja Católica a reconheceu oficialmente. "Eles são as principais infrações de caráter do homem, atos de puro egoísmo", descreve o teólogo Denilson Geraldo.
Gula
Além de abastecer o organismo com nutrientes essenciais para seu funcionamento, os alimentos também podem preencher aquele vazio que surge nos momentos difíceis. "A gordura e o açúcar, por exemplo, promovem prazer e satisfação", conta a endocrinologista Cláudia Cozer. E está comprovado que certos tipos de carboidrato melhoram pra valer nosso humor. É que, no cérebro, a substância faz a nossa fábrica de serotonina, o neurotransmissor da alegria, trabalhar a mil. Gula tem a ver com exageros alimentares, mas uma indulgência vez ou outra não faz mal a ninguém. A liberalidade no prato só não deve se tornar uma regra. "O descontrole ocorre quando o indivíduo deixa de ser responsável por suas escolhas à mesa e passa a comer desenfreadamente sempre”, arremata o psiquiatra Alexandre Azevedo.
Avareza
Apego excessivo ao dinheiro e às riquezas - assim define-se a avareza no dicionário. Mas dar importância ao que se conquista é algo essencial quando vivemos em sociedade. "Essa valorização funciona como um estímulo, especialmente no âmbito profissional", sentencia o psiquiatra Renato Mancini. No entanto, quando o indivíduo tem como único objetivo acumular e acumular, não importa se são exemplares de revistas ou cacarecos, o que dá as caras é o transtorno comportamental obssessivo, mais conhecido como TOC. "Quem sofre com o colecionismo patológico, além de guardar tranqueiras, apresenta outras complicações, como depressão e ansiedade", explica o psiquiatra Leonardo Fontenelle. É desde pequeno que se aprende a controlar a ânsia por novidades. Daí a relevância - clichê, mas imprescindível - de impor limites à criançada.
Vaidade
Cuidar da aparência é considerado algo fútil, muitas vezes não sendo encarado como uma atitude realmente saudável. Puro preconceito. Muitos cosméticos contêm de fato ativos que ajudam a evitar e tratar problemas na pele. "A niacinamida, vitamina do complexo B, é antioxidante, hidrata e controla inflamações", dá um exemplo a médica Denise Steiner. Não há nada de errado em recorrer a cremes para dar uma ajuda ao colágeno, proteína que dá sustentação à cútis, sem falar nos filtros que previnem tumores. Esse recado vale para homens e mulheres. O que não se deve é dar uma de Narciso insatisfeito e ficar mirando o espelho, espelho meu. "Isso pode levar à busca indisciplinada por tratamentos estéticos deformantes", alerta Ricardo Mancini. No final das contas, o belo acaba se metamorfoseando na fera - ou melhor, na feiura propriamente dita.
Preguiça
"É normal tirar um cochilo após o almoço", diz o neurologista Luciano Ribeiro. Dito de outro modo, aquela preguiça que se instala geralmente depois da refeição está longe de ser doentia. No entanto, quando a pessoa passa a funcionar em ritmo lento e é acometida por sonolência excessiva em situações rotineiras, como em um bate-papo ou ao volante, é mesmo sinal de algum problema. "A privação de sono pode ser responsável por complicações cardiovasculares, como hipertensão, infarto e derrames”, adverte o também neurologista Fernando Morgadinho.
Luxúria
"Sexo! Sexo! Como é que eu fico sem sexo?", o verso da canção do grupo de rock Ultraje a Rigor, fenômeno nacional nos anos 1980, é quase uma versão mais divertida de uma recomendação da Organização Mundial da Saúde. "As relações sexuais promovem mudanças físicas e químicas que ativam a circulação", diz a ginecologista Poliani Prizmic. E não só: a atividade debaixo dos lençóis acelera o gasto calórico e combate o estresse. O outro lado dessa moeda sensual é a compulsão, que pode começar a se desenvolver ainda na adolescência. Ela apresenta duas facetas: o consumo excessivo de material pornográfico e transas sem freios. "Esse tipo de distúrbio funciona como uma droga", esclarece o psiquiatra Marco de Tubino. Isso quer dizer que a pessoa busca mais tempo e intensidade para se manter satisfeita na cama.
Inveja
Fala sério: você nunca desejou ter o carro do vizinho ou os lábios da Angelina Jolie? A inveja é acusada injustamente de só provocar a morte. "Ela nos impulsiona a ir além", contrapõe a psicóloga Luciana Slomka. Em outras palavras, esse sentimento faz a gente, de alguma forma, procurar se superar, seja no trabalho, seja na malhação. Ele só se torna uma encrenca daquelas quando o que o motiva é ter algo a qualquer custo. "Em casos graves, a pessoa pode querer assumir a forma de alguém, causando danos à própria saúde", completa Luciana. Nessas situações, a inveja pode ser sintoma de um transtorno de personalidade, como a oniomania, quando o indivíduo só pensa em comprar, comprar e comprar. Haja cartão de crédito e conta bancária.
Ira
Descontar o estresse do dia a dia faz parte da rotina. Trabalho, reuniões e mais reuniões, contas a pagar, filhos e seus problemas na escola... Ufa! Dá vontade de mandar tudo para outra dimensão. Quem explode facilmente diante de um momento de pressão é, óbvio, naturalmente mais impulsivo. "Tendem a ser pessoas espontâneas, irreverentes e com rapidez de reação", diz a psicóloga Liliana Seger. Mas render-se a esse tipo de atitude irrefletida pode resultar no que os especialistas denominam de transtorno do impulso. Ele se caracteriza por agressividade desproporcional a alguma situação. É a ira. "Quando ela é reprimida sem o acompanhamento de um especialista, pode causar alterações cardiológicas, gastrite e até úlceras", relata Liliana. A saída é canalizar essa postura irada por meio de terapia para transformá-la numa ferramenta produtiva.
Fonte: Revista Saúde |