Já ouviu falar na DPOC?
Comum entre fumantes, a doença é a quinta causa de morte no mundo.
Saiba como combatê-la
 

A Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) é caracterizada pela dificuldade da passagem de ar pelos brônquios. Trata-se de um mal progressivo, associado à resposta inflamatória anormal dos pulmões e à inalação de partículas e gases tóxicos. Esse processo provoca a alteração dos brônquios, dos bronquíolos, bem como dos alvéolos. "O que acontece na DPOC é que as vias que carregam oxigênio para os pulmões ficam mais estreitas, causando dificuldade para respirar", explica José Roberto Jardim, coordenador do Centro de Reabilitação Pulmonar da Universidade Federal de São Paulo. Em 90% dos casos, o tabagismo é a principal causa desse mal que, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2020, subirá dois degraus no ranking das doenças mais fatais, chegando ao terceiro lugar.

De olho nos sintomas
Manoel de Souza Machado Júnior, presidente da Associação Brasileira de Portadores de DPOC, 79 anos, conta que foi fumante durante 35 anos. Há 20 anos parou de fumar. Quando sintomas como tosse, catarro, dificuldade para respirar (dispneia), dor no peito e cansaço exagerado apareceram, ele pensou que fossem sinais próprios do envelhecimento. "Depois desses sinais, veio a forte crise respiratória. No prontosocorro, fui removido para a UTI. Passado o susto, soube da existência da doença, e com ela convivo nos últimos dez anos".

A tendência dos pacientes é agir como Manoel. "Eles não só ignoram os sintomas, como não procuram um médico para uma avaliação", afirma José Alberto Neder, professor de Pneumologia. Segundo o especialista, esse comportamento agrava o quadro de uma doença que nunca é totalmente reversível. "E nos consultórios médicos, a situação nem sempre é animadora", acrescenta Neder. "Muitas vezes a doença é subdiagnosticada, pois a DPOC é um mal formado por várias doenças, cujas manifestações podem ser confundidas com asma", completa.
Para fazer um diagnóstico preciso, além de uma radiografia do tórax, são necessários exames específicos para testar as funções pulmonares (espirometria) e a quantidade de oxigênio no sangue (gasometria), nos casos mais graves.

Irreversível, mas tratável
Embora a lesão nos pulmões causada pela DPOC seja de difícil recuperação, os especialistas afirmam que o tratamento é possível e seu objetivo é controlar os sintomas e retardar a evolução da doença. Todo o processo requer a colaboração de uma equipe multidisciplinar: "A primeira coisa a ser feita é parar de fumar. E vale a pena fazê-lo em qualquer fase da doença", fala Neder.
O tratamento medicamentoso clássico prevê o uso de broncodilatadores e corticoides inalatórios. Mas Jardim esclarece que um estudo apresentado no Congresso da Sociedade Respiratória Europeia (ERS), em setembro de 2010, mostrou que algumas inflamações dos pulmões na DPOC são resistentes aos corticoides, o que evidencia a necessidade do uso de drogas específicas, como o anti-inflamatório roflumilaste. Já liberado na União Europeia, o medicamento, fabricado pelo laboratório Nycomed, aguarda aprovação da Anvisa.

O pneumologista conta que somente há dez anos a DPOC foi definida como doença inflamatória. Como a asma era uma patologia semelhante e respondia bem aos corticoides, pacientes de DPOC passaram a ser tratados da mesma forma, nem sempre com bons resultados.

Efeitos colaterais
Na opinião de Neder, a maior vantagem do novo medicamento é "a ausência dos efeitos colaterais provocados pelo uso crônico de corticoides orais, além de poder ser ministrado via oral, uma vez ao dia". Jardim pondera que corticoides inalatórios podem trazer efeitos suaves, mas eles são compensados por seus resultados. "Com o roflumilaste não é diferente, pois pode causar diarreia e náuseas no início de seu uso em 5% a 10% dos pacientes. Mas o fato é que o tratamento funciona para aqueles que não respondem à terapia clássica".

Outra modalidade coadjuvante é a oxigenoterapia, que permite inalação direta de oxigênio com o auxílio de um cateter ou de uma máscara, e é útil especialmente nos casos graves. A reabilitação pulmonar, por meio de exercícios realizados com o apoio de fisioterapeutas, visa ao fortalecimento do organismo, habilitando-o para a realização das tarefas diárias. Cirurgias são também opções possíveis nos casos em que haja necessidade de reduzir o volume pulmonar, colocar stents ou transplante de pulmão.

O perigo da desnutrição
Irma de Godoy, professora de Pneumologia, comenta que a demora do paciente em procurar ajuda se justifica porque ele só vai ao médico quando passa a sentir falta de ar. A tosse é geralmente ignorada, porém, quando ele se apresenta diante de um especialista, já são visíveis os sinais da perda de peso e da massa magra. A razão para isso seria o desequilíbrio entre o que se ingere e o gasto energético.

Confirmado o quadro de desnutrição, o objetivo da terapia nutricional é atingir uma meta capaz de prevenir a perda de peso, mas o ideal é que ela integre um programa de reabilitação pulmonar, em que seja possível combinar dieta e exercícios físicos.

Prevenção e vida social
E para prevenir? Se a maior causa da DPOC é o tabagismo, parar de fumar é imperativo. Evitar ambientes onde haja propagação de fumaça é uma medida indispensável. O pneumologista José Alberto Neder destaca ainda o maior risco para o desenvolvimento da doença entre as mulheres.

Toda a ação multidisciplinar visará, então, a aliviar sintomas, controlar a progressão da doença, complicações, crises e eventuais efeitos colaterais decorrentes do próprio tratamento, mas o maior objetivo é reduzir a mortalidade, melhorar a capacidade de praticar exercícios e a qualidade de vida. Nesse último aspecto, Neil Barnes, consultor em Medicina Geral e Respiratória do London Chest Hospital (Reino Unido), observa que o impacto da DPOC pode ser devastador. "Há perda progressiva da habilidade para se vestir, falar, dormir e até para a atividade sexual", diz. "Isso também reflete na vida social, pois a doença isola os pacientes, afetando suas relações."

Manoel de Souza confirma: "Há anos não posso sair com minha esposa, sequer para um jantar". A preocupação é a friagem, um eventual acesso de tosse, a mastigação difícil que pode tirar o fôlego: "Quando recebi o diagnóstico, achei que iria morrer. Mas segui o tratamento indicado e logo notei melhora na vida como um todo", fala.

A alimentação de quem tem DPOC
● Como a doença causa desnutrição com perda muscular, a dieta deve ser hiperproteica, combinada com carboidratos.
● As proteínas (peixes, de preferência) devem estar presentes em todas as refeições e corresponder a 20% de tudo quanto se come.
● O ideal é que as refeições sejam feitas de forma fragmentada, a cada 3 horas, com prévio descanso de, ao menos, 30 minutos.
● Os alimentos não devem ser duros, dando-se preferência aos de fácil mastigação.
● Outra particularidade da DPOC é a inflamação sistêmica, que potencializa o processo oxidativo. Assim, a dieta deve também incluir vitaminas antioxidantes, principalmente as do tipo A, C e E.
● Para garantir o consumo de vitamina A, inclua no cardápio mamão e cenoura.
● Frutas cítricas, como laranja e limão, e folhas verde escuras fornecem vitamina C.
● Castanhas, nozes, avelãs e azeite são fontes importantes de vitamina E.


Fonte: Revista Viva Saúde





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