A estatística é a seguinte: para cada homem com dores atrozes na cabeça, há 2,2 mulheres afetadas pela enxaqueca, a mais temível de todas elas. A enxaqueca é, na verdade, uma doença neurológica crônica com causas variadas e predisposição genética. "É muito comum, durante a primeira consulta com o paciente, descobrir que ele possui algum parente de 1° grau com a mesma doença", confirma Getúlio Daré Ribeiro, coordenador do Ambulatório de Cefaleia do Hospital das Clínicas de São Paulo.
O médico ainda alerta para o fato de que, aproximadamente, 20% da população feminina sofra suas consequências. Entre os homens, a porcentagem varia entre 5% e 10%. O problema, geralmente, se inicia na infância ou na adolescência e pode acompanhar a pessoa por toda a vida. Na prática, ela se traduz por uma dor unilateral, latejante, e piora com a movimentação, o que obriga muitas vezes a pessoa a recolher-se num quarto escuro por causa da hipersensibilidade à luz e aos ruídos.
O incômodo pode durar entre quatro e 72 horas. Causa sensação de dormência em membros do corpo, náusea e perturbações visuais, como luzes piscando e visão embaçada. Enfim, um tormento, mas hoje cada vez melhor controlado, especialmente para aqueles que aceitam que não basta se entupir de medicamentos para aliviar a dor.
Hormônios e atitudes
O primeiro estudo epidemiológico que mapeou a enxaqueca no Brasil, por amostra populacional, indicou que o Sudeste é campeão nesse quesito, com índices que chegam a 20,5% de toda a população, seguido pela região Sul, com 16,4%, e Centro-Oeste, 9,5%. As mulheres são as vítimas mais frequentes não apenas por maior predisposição genética e porque a dança mensal de hormônios favorece a doença. Há também o fator comportamental, que se traduz em mais ansiedade, oscilação de humor, irritabilidade como causas principais.
"A flutuação hormonal é a grande responsável, especialmente com a queda nos níveis de estrógeno, que deixa a mulher mais predisposta às crises. A alteração de neurotransmissores, como a serotonina, é outro motivo que explica as alterações comportamentais", afirma o coordenador do mapeamento inédito, Mario Peres, professor do departamento de Neurologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
De acordo com os resultados de um estudo publicado em março na revista Headache, a associação entre menstruação e enxaqueca pode ser demonstrada já durante a adolescência. Os pesquisadores do Children's Hospital Medical Center avaliaram 896 meninas com idade entre nove e 18 anos. Desse total, 331 relataram o aparecimento de dor de cabeça durante o período menstrual. Além disso, 160 meninas determinaram um padrão mensal para as dores, apesar de não terem apresentado menarca. "Esses dados sugerem que a enxaqueca relacionada à menstruação aparece antes do primeiro ciclo menstrual, o que indica ser um evento sensível às flutuações hormonais que podem aparecer antes da menarca", disse Andrew Hershey, chefe do estudo.
Desacelere a dor
Exercícios físicos, medidas de relaxamento, psicoterapia, livrar-se de males como o tabagismo e do consumo excessivo de cafeína, álcool e dos excessos alimentares podem ser decisivos para o sucesso do tratamento. A atividade física libera endorfina e serotonina, substâncias que trazem bem-estar e auxiliam no combate à dor. A serotonina, em particular, é capaz de reduzir a inflamação e a dilatação dos vasos sanguíneos cerebrais. Em consequência, tende a desacelerar a dor. Mas, durante uma crise, nem pense em se exercitar. Dê um repouso ao seu corpo e somente retome as atividades quando estiver bem, alertam os médicos.
O lado psíquico e emocional também é um fator que não pode ser desprezado. Se a pessoa exige muito de si própria, pode beneficiar-se recorrendo à psicoterapia e a técnicas como ioga e meditação, que costumam funcionar bem.
Qual o tratamento?
Um problema de saúde ainda sem cura, a enxaqueca pode ser amenizada e as crises, evitadas com pequenas medidas. Uma delas é fazer um diário detalhado, incluindo os dias de dor, a intensidade e as datas do ciclo menstrual. Esse relato pode ajudar a estabelecer uma relação entre a dor e as fases do ciclo. Também é importante sabe quais alimentos pioram o problema. Cada pessoa sabe quais alimentos lhe fazem mal e devem ser evitados.
Há várias classes de medicamentos que podem ser usadas, mas antes de indicá-las é indispensável o médico fazer o diagnóstico correto e o paciente entender por que a dor existe no organismo. "Ela é um sinal de alerta do sistema de defesa com a função específica de readquirir o equilíbrio interno. Avaliar o que está acontecendo com aquela pessoa pode ajudar bastante no controle das crises. Só então indica-se o tratamento preventivo, que pode ser medicamentoso e o que muda hábitos de vida. Em muitos casos, eles estão associados para evitar que a dor apareça", explica Peres. É importante evitar o uso excessivo de analgésicos.
Em vez de amenizar a dor, como esperado, quando consumidos em excesso podem agravar o problema. "Estudos mostram que o abuso desses medicamentos interfere no número de crises de dores de cabeça e induz à evolução para a dor crônica", alerta a psiquiatra Esther Angélica Coelho Costa. Há pouco mais de um ano, ela concluiu um levantamento com pacientes atendidos pelo Ambulatório de Cefaleias da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em que não foi possível definir o que vem primeiro: o consumo exagerado de analgésicos ou o agravamento da dor.
O uso excessivo desses remédios, mais que duas vezes por semana, pode causar "cefaleia-rebote" e transformar uma dor episódica em crônica, como reforça a pesquisadora. "O ideal é usar os recursos preventivos, seja com medicamentos prescritos e hábitos de vida mais salutares, para evitar que as crises apareçam", indica Mario Peres.
A frequência das crises é o parâmetro médico para indicação do melhor tratamento. Quatro por mês é o limite máximo para iniciar a prevenção. Crises com um intervalo maior, mas muito intensas, também exigem cuidados.
A influência da comida
Ninguém descobriu ainda tudo o que faz desencadear a enxaqueca. Mas sabe-se que uma alimentação dirigida pode ajudar a melhorá-la. Tem gente que come frutas cítricas e tem enxaqueca. Outras, se ingerirem embutidos, morrem de dor. Há, também, as que têm crises quando comem queijo e chocolate, ou bebem vinho. É tudo muito particular e, por isso, os médicos procuram fugir de algumas regras. Na visão médica, parece bobagem fazer uma lista de alimentos que devem ser evitados para conter a doença. Mas há especialistas que preferem sugerir alimentos que combatam sintomas generalizados da enxaqueca.
Entender a relação dos alimentos com a enxaqueca e encontrar uma estratégia para ingeri-los de forma saudável é o desafio de Alexandre Feldman, médico e autor de cinco livros sobre a doença. "A enxaqueca tem muitos sintomas, como enjoo, vômitos, aversão à claridade, ao barulho, a cheiros ou sabores. E também pode ser desencadeada por predisposição genética", diz Feldman. Tentar equilibrar a serotonina, em vez de combater cada um dos sintomas, para ele, é o mais sensato a fazer. Para isso, sugere a mudança de alguns hábitos, como diminuir a ingestão de alimentos dos quais o açúcar é rapidamente absorvido pelo organismo, como doces, massas, biscoitos e refrigerantes. "Uma pessoa que sofre de enxaqueca, na hora da dor, passa por um processo de inflamação neurogênica", afirma. Ele também defende que qualquer alimento que contribua para aumentar ou diminuir o quadro inflamatório do organismo deve ser levado em consideração na dieta de alguém que sofra da doença. Confira, abaixo, as principais dicas.
Açúcar. Quando o açúcar dos alimentos, em forma de amido, é ingerido em sua forma natural (não-refinada) em uma refeição com gorduras e proteínas saudáveis, sua digestão ocorre lentamente, permitindo que ele entre na corrente sanguínea de forma gradual, ao longo de várias horas. Doces e guloseimas, massas e pães brancos, purê de tubérculos, suco de frutas e refrigerante normal são fontes de açúcar que é rapidamente absorvido pelo corpo, e isso desequilibra o nível de serotonina.
Gorduras. As gorduras poliinsaturadas, usadas na cozinha (óleo de soja, milho, canola, girassol, algodão e margarina) são pró-inflamatórias porque estão oxidadas e geram radicais livres que provocam inflamação no organismo. Seriam mais saudáveis se ingeridas em pequenas quantidades, terem sido prensadas a frio, como o azeite de oliva, e conservadas em ambiente refrigerado. Neste caso, usar gorduras saturadas – de animais – em poucas quantidades acaba sendo uma solução mais saudável. O azeite, monoinsaturado, só deve ser ingerido cru, sem passar pelo processo de cozimento para não perder suas propriedades benéficas.
Cafeína. Presente no café, nos chás escuros, no chocolate e na Coca-Cola, ela estimula o Sistema Nervoso Central. A enxaqueca é definida como um estado de hiperatividade e, ingerindo cafeína, esse estado só tende a aumentar e piorar os sintomas em momentos de crise. O problema é que ela vicia e, a longo prazo, sua falta pode contribuir para a piora dos sintomas, um círculo vicioso que pode não ter fim. Se você tem enxaqueca, melhor ficar longe.
Fontes: Revistas Época e Viva Saúde |